'Fui humilhada', diz vice sobre Crespo

A vice-prefeita disse que a polêmica começou após denúncias envolvendo a falta de diploma de uma assessora - ERICK PINHEIRO

A vice-prefeita disse que a polêmica começou após denúncias envolvendo a falta de diploma de uma assessora - ERICK PINHEIRO

"Fui humilhada sem dúvida alguma" pelo prefeito José Crespo (DEM), afirmou na manhã desta segunda-feira (26) a vice-prefeita Jaqueline Coutinho (PTB). "Você suma daqui, pegue suas coisinhas e vá ser vice-prefeita em sua casa, pois você não fica mais no 6º andar", teria dito Crespo a ela, na sexta-feira, em razão de um desentendimento no gabinete do prefeito no Paço motivado por denúncia de irregularidade na documentação de comprovação de escolaridade da secretária do prefeito. Em coletiva de imprensa, Jaqueline falou sobre a repercussão da postagem feita pela mãe dela no Facebook, no domingo, relacionada a uma denúncia de uma possível agressão do prefeito de Sorocaba contra a vice e o secretário municipal de Gabinete Central, Hudson Zuliani. Jaqueline confirmou que a postagem, que gerou repercussão nas redes sociais, foi escrita pela mãe dela, Neide Andrade Barcelos Coutinho, já que no sábado (24) ela teria contado sobre a reunião que participou no 6º andar do Paço Municipal, na manhã de sexta, onde os fatos teriam ocorridos. A vice não condenou a publicação de sua mãe e disse que ela também teria feito algo semelhante caso sua filha tivesse passado por situação parecida, como o que ocorreu no gabinete de Crespo.

Na publicação, Neide afirma que "Crespo age com agressividade e destempero ao tentar agredir um secretário em seu gabinete e a vice-prefeita que foi em socorro ao funcionário". Em outro trecho, a mãe de Jaqueline disse que o prefeito teria feito "tudo isso em detrimento de nosso povo, povo esse que o elegeu".

Segundo Jaqueline, ela não teria orientado a mãe a fazer a postagem no Facebook. Sobre o texto da mãe, a vice disse que "eu entendo a dor dela enquanto mãe, que me acompanhou ao longo de todos os meses de campanha. Uma pessoa que nunca foi política e que se envolveu num meio difícil, que deixou os filhos para participar de campanha política, não estando presente como deveria, e mesmo com o pé quebrado continuou trabalhando na campanha". A vice disse ainda que a mãe dela apenas manifestou a percepção dos fatos que ela sentiu do que eu contei para ela no sábado. "Ela sabe como mãe que isso me constrangeu muito e ela como mãe teve essa percepção. Ela sentiu essa dor. Foi repassada para ela e não digo que eu não teria feito o mesmo se fosse minha filha".

Na sexta-feira à noite, às 23h05, a vice-prefeita já tinha feito uma postagem, em sua página, na mesma rede social, relatando que naquele dia tinha tido uma "exata dimensão da célebre frase de Rui Barbosa", sobre um famoso texto do pensador, que fala sobre o triunfo de nulidades. Além disso, ela desabafou na mesma postagem: "Vivendo e aprendendo. Mas jamais me desanimarei da virtude, me apartarei da honra e terei vergonha de ser honesta. Justiça sempre". A vice também confirmou que fez tal publicação em seu Facebook naquele dia em função do que ocorreu pela manhã, no gabinete de Crespo envolvendo ela, o secretário Zuliani e a denúncia de suposta irregularidade com documentos de comprovação de ensino superior da atual secretária do prefeito, Tatiane Regina Goes Polis, que é assessora nível 3, em cargo comissionado, cujo salário chega a quase R$ 9 mil por mês, função que exige nível superior.

Repercussão inesperada

Jaqueline disse ainda que a publicidade gerada em torno da postagem ocorreu sem que ela imaginasse tamanha repercussão, pois o fato havia ocorrido já na sexta pela manhã. "Até então em momento algum me manifestei sobre os fatos e acabou ocorrendo uma repercussão inesperada. Mas, obviamente eu entendo as razões da publicidade que foi dada, e eu como uma pessoa que primo pela verdade, não vou me escusar, nem em nome de pacto político, em falar a verdade".

Jaqueline investigava a escolaridade de servidora

Após receber uma denúncia anônima sobre o suposto uso de diploma irregular por parte de Tatiane Polis, a vice-prefeita, Jaqueline Coutinho, realizou uma pesquisa sobre a escolaridade da servidora comissionada. Em entrevista ao jornal Cruzeiro do Sul, Jaqueline disse que recebeu a denúncia há cerca de dois meses, por telefone. O telefonema teria sido feito por um homem usando um número restrito. Depois disso, a vice realizou algumas ações para averiguar a veracidade da denúncia.

Jaqueline afirma que fez pesquisa pessoalmente na Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (Esamc), onde a comissionada teria feito o curso superior. Ela também buscou informações no Diário Oficial do Rio de Janeiro, sobre o certificado do diploma de nível médio; e no sistema Gestão Dinâmica de Administração Escolar (GDAE), da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo, sobre o ensino fundamental. Nessa plataforma, a vice disse constar que Tatiane Polis parou seus estudos na 6ª série do fundamental.

"De fato confirmei que ela tem o diploma de nível superior. Então, eu pedi para ver o diploma do ensino médio porque essa era a denúncia. Observei que a cópia do documento do nível médio era de uma escola do Rio de Janeiro, e o que me chamou a atenção foi o fato do diploma ter sido expedido e publicado em Diário Oficial no mesmo dia, quando geralmente leva um certo tempo entre a expedição e a publicação." Jaqueline afirma ainda que também confirmou a publicação do diploma no Diário Oficial Estadual do Rio de Janeiro.

A próxima etapa da investigação de Jaqueline foi uma pesquisa na Secretaria Estadual da Educação de São Paulo, sobre a situação escolar da funcionária comissionada. "Havia informações correntes dentro da própria Prefeitura, de que ela não teria o ensino fundamental 2. E de fato pela plataforma consultada (GDAE) a funcionária teria feito até a 6ª série." Segundo Jaqueline, após ela ter recebido o telefonema com a denúncia, a informação foi repassada para o corregedor da Prefeitura de Sorocaba, Gustavo Barata, para que tomasse as medidas cabíveis a respeito.

A Esamc e a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo foram questionadas pela reportagem. A Esamc alega que as informações sobre o aluno são sigilosas. Já a pasta estadual disse apenas que a consulta no GDAE é pública. A Secretaria Estadual do Rio de Janeiro não foi questionada por falta de dados.

Solicitação do diploma

A funcionária comissionada, segundo disse a vice-prefeita, foi chamada na quinta-feira (22), por volta das 17h45, para uma reunião na presença do secretário Hudson Zuliani, onde Jaqueline contou sobre o que tinha apurado e pediu que fosse apresentado o diploma de conclusão do ensino fundamental. Segundo Jaqueline, a funcionária alegou que já tinha apresentado documento que comprova que ela concluiu o ensino superior e que deste modo não seria obrigada a apresentar o documento referente ao ensino fundamental. O Cruzeiro do Sul entrou em contato pelo telefone celular de Tatiane durante várias vezes ao dia, mas não obteve retorno.

Veja a íntegra da entrevista:

O motivo da discussão

O desentendimento no gabinete do prefeito teve como causa a cobrança que Jaqueline Coutinho fez à funcionária Tatiane Polis na quinta-feira (22), quando era a prefeita em exercício, pois José Crespo havia viajado a Portugal. Na manhã seguinte, Crespo, de volta ao Paço, chamou Jaqueline para uma reunião, juntamente com o secretário Zuliani, a funcionária Tatiane Polis, o corregedor Gustavo Barata, e o assessor Carlos Henrique Mendonça, no 6º andar do Paço. Segundo Jaqueline, durante a reunião, onde os fatos envolvendo a denúncia a respeito dos diplomas de escolaridade da funcionária comissionada foram apresentados, o prefeito teria se exaltado e partido para cima de Zuliani. Jaqueline disse que, ao tentar impedi-lo, acabou segurando a mão do prefeito e teria sido empurrada por Crespo.

Jaqueline afirma que o prefeito disse que ela não poderia ter feito essa intervenção no caso da assessora, sem a presença dele, e que ela deveria ter aguardado a volta dele, pois o assunto já estava resolvido em razão de sindicância anterior. A vice, então, disse que discordou de Crespo e falou sobre as informações que tinha levantado a respeito. "Eu falei que não está resolvido e que existe a dúvida com relação ao ensino fundamental 2. Daí ele me mostrou cópias dos certificados, porém quando eu pedi a cópia do ensino fundamental 2 dela ele se exaltou. "Você suma daqui, pegue suas coisinhas e vá ser vice-prefeita em sua casa, pois você não fica mais no 6º andar. E que eu estava proibida de fazer qualquer investigação em relação a isso", teria dito a ela. Segundo a vice, o secretário Zuliani, que também teria tentado argumentar sobre a questão, igualmente teria sido ofendido e Crespo teria partido para cima dele, mas foi segurado pelos demais presentes na sala. "Ele falou que era para o secretário pedir as contas e chamou um guarda civil municipal para nos expulsar da sala", conta Jaqueline.

A vice disse ainda que saiu da sala chorando e que em 27 anos de atuação na Polícia Civil, como delegada de polícia, nunca tinha se sentido aviltada, constrangida e atacada daquela forma.

Vice-prefeita diz que não registrará BO

Embora tenha recebido muitas mensagens de apoio por meio das redes sociais, a vice-prefeita, Jaqueline Coutinho, disse na manhã de ontem, que não irá registrar boletim de ocorrência contra o prefeito de Sorocaba, José Crespo. Ela afirmou que isso é uma decisão dela e que apesar de, como disse, ter sido humilhada e empurrada pelo prefeito, não tem interesse em formalizar a ocorrência.

A vice, que é delegada de Polícia, destacou que a formalização do ocorrência é um instrumento do Estado para uma eventual punição ao infrator, mas que na situação ocorrida há, além do envolvimento do foro íntimo, a questão política. "Eu posso registrar como posso não registrar a ocorrência. Mas eu não tenho interesse em registrar. Então, para aqueles que alegam que estou amarelando ou pipocando eu digo que existem outras formas além do registro da ocorrência de evitar que fatos como esse possam ocorrer novamente."

Para Jaqueline, o apoio recebido nas redes sociais demonstra a percepção dos fatos do ponto de vista da ética e da verdade "e do comprometimento daquele agente público que foi eleito justamente para agir de forma ética e verdadeira. Lógico que eu vou, diante desse fato, experimentar pessoalmente, emocionalmente e até fisicamente muitos problemas, e já estou me fragilizando, mas quem sai na chuva é para se molhar. Então, vou ter que arcar com esse ônus".

Situação fugiu do controle, avalia vice

Após o episódio que gerou mais uma crise em quase seis meses do governo do prefeito José Crespo, a vice-prefeita, Jaqueline Coutinho, afirmou na manhã de ontem que não irá pedir afastamento do cargo e que espera uma solução administrativa para que ela possa continuar a exercer as suas atividades às quais foi eleita. A vice afirma ainda que desde sexta-feira e até a manhã de ontem não tinha sido procurada por Crespo para tentar resolver o impasse e ela retomar normalmente suas atividades no Paço Municipal. Bastante abalada pela repercussão dos fatos, Jaqueline disse ainda que irá avaliar as próximas etapas da situação que, para ela, acabou fugindo do controle estratégico do governo de Crespo.

De acordo com Jaqueline, a repercussão dos fatos gerou uma crise institucional no governo Crespo, e que tal situação precisa ser resolvida de forma administrativa. "Diante da repercussão toda nós vamos ter que conversar. Se formou evidentemente uma situação de crise institucional, mas isso vai ter de ser resolvido administrativamente, pensando sempre no que é o principal, que é a governabilidade e a administração de uma cidade".

A vice disse ainda que aguarda desde sexta uma manifestação de Crespo. "Na realidade depende dele. Eu estou esperando nem que ele se desculpe porque tem coisas que são irretratáveis." A vice diz ainda que neste momento é preciso ser levado em conta que tanto Crespo quanto ela foram eleitos para fazer uma administração eficiente diante do programa de governo que foi pactuado. "Existe um programa de governo e é isso o que a gente tem que cumprir. Você não pode ter um discurso e não ter a prática, nós vamos sentar e tentar resolver as coisas".

Para ela, um possível afastamento do prefeito também não seria o ideal para a cidade neste momento. "Eu não acho que seria bom porque nós temos acima de tudo um governo que está se iniciando, que está fazendo projetos e está atuando de forma adequada, promovendo ações importantes, que eu julgo importante para a cidade, e é isso que a gente tem que pensar". Jaqueline ressalta que o momento exige análise dos aspectos legais e jurídicos e que a Câmara de Vereadores de Sorocaba precisa pesar isso. "O impacto hoje para Sorocaba seria muito ruim um afastamento do prefeito. Então, nós temos que ter uma avaliação criteriosa e de bom senso".

"Tenho que conversar com a administração para a gente ver os próximos passos do governo com relação a essa publicidade que houve em torno do ocorrido. Eu estou me expondo e ficando numa posição de vulnerabilidade muito grande, tanto pessoalmente como politicamente, o que é uma coisa que me desagrada. Mas havia a necessidade dessa explicação para que não houvesse qualquer dúvida e principalmente para que não houvesse a transmutação ou a subversão da verdade", afirma Jaqueline.

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Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul

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