Déjà vu? Como a saga de sucesso de Cristiano Ronaldo no Real reencontrou a 'tristeza' declarada de 2012

A infelicidade de Cristiano Ronaldo na Espanha levou a uma sensação de Déjà vu em torno do Real Madrid. Sua última declaração de "tristeza" nos transporta para quase quatro anos atrás e ajuda a entender o impasse atual com o presidente Florentino Pérez, que pode culminar na sua saída do clube.

Acusado de fraude fiscal - o valor é 14,7 milhões de euros, ou R$ 54,8 milhões -, o jogador, até agora, não deu nenhuma declaração pública sobre as investigações da justiça espanhola.

Sem espaço no Real, James pode ser emprestado ao Milan, diz jornal

Cristiano Ronaldo avisa que não irá pagar os R$ 54,8 milhões que foi acusado de sonegar na Espanha

"[Cristiano] está realmente entristecido com tudo o que está acontecendo", disse Luis Campos, ex-dirigente do Real e hoje diretor de futebol de Lille, amigo pessoal do jogador e de Jorge Mendes, o empresário de Ronaldo. "Ele se sente ferido por tudo o que está acontecendo e está passando por um momento difícil."

A frase e toda a situação nos levam para 2012, última vez que o superstar afirmou que estava "triste". Em setembro daquele ano, ele abriu seu coração na zona mista do Bernabéu, depois de ter se recusado a comemorar um gol durante a vitória por 3 a 0 sobre o Granada em LaLiga.

"Estou triste, e as pessoas do clube sabem disso, é por isso que não comemorei", craque da seleção portuguesa à época. "Há problemas profissionais. Não posso mais dizer. Veremos o que acontece."

No outono de 2012, Ronaldo tinha muitas razões para desanimar. Os comentários após o jogo com o Granada aconteceram apenas alguns dias depois de ele ter visto de perto o também Andrés Iniesta, do Barcelona, receber o Prêmio Melhor Jogador da Europa pela Uefa na temporada anterior. Lionel Messi também acabara de celebrar a conquista de LaLiga em 2011-2012, diferentemente do que acontece hoje, com o Real recentemente campeão.

Pato revela que preferiu Milan ao Real e relembra problemas físicos: 'Me disseram que já não podia jogar'

As oito novelas mais longas, e milionárias, do Mercado da Bola

Mais importante ainda, talvez, é relembrar que Ronaldo estava sob o mesmo contrato que havia assinado quando deixou o Manchester United, em 2009. Messi já havia recebido aumentos regulares em seus salários no Barça. Os repórteres mais próximos de Jorge Mendes veiculavam notícias que atraentes ofertas estavam chegando ao Real, incluindo propostas de Paris Saint-Germain, Manchester City e até do Anzhi Makhachkala - a ameaça bilionária da vez, a versão russa do que é, hoje, a sondagem chinesa.

O presidente do Real, Florentino Pérez, não cedeu imediatamente às pressões. Mesmo depois de ficar claro que o dinheiro era a questão principal, ele continuou a jogar duro. Curiosamente, os detalhes dos vários problemas fiscais dos clientes da Gestifute, empresa que gerencia a carreira do craque, mostram o ano de 2013 como ponto crucial: a alegação é de pontos conflitantes entre os direitos de imagem do jogador. No entanto, mais de 12 meses após a "tristeza", um novo acordo foi feito, e Ronaldo tornou-se o jogador de futebol mais bem pago do mundo novamente.

Não houve tanto drama em torno de seu contrato mais recente com o Real, fechado em novembro do ano passado. Tanto que Ronaldo falou sobre seu desejo de defender o clube depois dos 40 anos. E todos ainda estavam sorrindo quando, aos 32 anos, ele continuou mostrando a sua suma relevância com 16 gols nos últimos 10 jogos, comandando em campo o time de Zinedine Zidane e conquistando os troféus de LaLiga e da Champions League 2016-2017.

Isso faz com que sua súbita obstinação em nunca mais jogar pelo Real parece ainda mais estranha agora. Seus problemas fiscais não são novos, as cobranças têm ocorrido há muito tempo, muito antes de o problema ter sido tornado público pela Football Leaks em dezembro de 2016. O próprio Ronaldo parecia bastante relaxado sobre a situação anterior, até mesmo brincando sobre o seu troféu Fifa "The Best". Na premiação, em janeiro, quando foi eleito o melhor do mundo do ano passado, ele ironizou dizendo que a preciosidade vinha "livre de impostos".

Mas algo mudou. Talvez seja a crescente realização de quantos milhões serão necessários para regularizar sua situação tributária na Espanha. Ou um sentimento de que sua posição de "barganha" é agora mais forte, graças à sua excelente temporada, especialmente na reta final. Talvez seja o esperado novo acordo de Messi, que possivelmente colocará o craque do Barcelona novamente no topo salarial. Ou a expectativa do staff do jogador que o antigo político Florentino Pérez incline-se mais fortemente no sistema judicial espanhol em nome de sua joia rara.

Ex-lateral do Real Madrid e campeão mundial com a Espanha se aposenta aos 34 anos

Jornal: Diego Costa, Filipe Luis e James podem ser investigados por suposta fraude

Por mais que existam semelhanças, a situação, no entanto, não é a mesma coisa de 2012. São apenas oito meses desde que um grande aumento salarial inchou o orçamento no Bernabéu. Embora a contribuição de Ronaldo em campo tenha sido inegável, a política de rotação do elenco proposta por Zidane na temporada passada mostrou que a equipe era menos dependente de uma única estrela semana a semana. Pérez também está em uma posição pessoal muito mais forte, depois dos títulos consecutivos da Champions League, e já apontou o adolescente Kylian Mbappe, "promessa-realidade" do Monaco, como o seu próximo grande alvo, além de acreditar na força caseira de Marco Asensio como outra estrela mundial emergente. E, apesar de sua força política, ele não pode simplesmente ordenar que as autoridades fiscais da Espanha fechem os olhos.

A última declaração pública de tristeza de Ronaldo fez com que ele, eventualmente, conseguisse o que ele queria - materializada em mais dinheiro e em um maior respeito de seu chefe. Mas, desta vez, as coisas parecem bastante diferentes, e Florentino é definitivamente um homem que gosta de rir por último.

*Dermot Corrigan é reporter, baseado em Madri, e responsável pela cobertura de LaLiga e da seleção da Espanha para o ESPN FC. Tradução livre de Ricardo Zanei. O conteúdo original, em inglês, pode ser acessado em "Cristiano Ronaldo's Real Madrid saga harks back to 2012 'sadness'".

Fonte: ESPN.com.br

Comentários