Frete aumenta sem o e-Sedex

Criado há 16 anos, o e-Sedex era apontado como uma das peças-chave para o crescimento do mercado de vendas online no Brasil. Porém, nem mesmo sua representatividade foi suficiente para fazer com que os Correios mantivessem o serviço. Mergulhado em sua pior crise financeira da história, com estimativa de prejuízo de R$ 1,3 bilhão para este ano, a estatal descontinuou o serviço de entregas expressas no último dia 19, deixando órfão um mercado que agora se vê em busca de alternativas para não encarecer o preço de seus produtos.

Para o vice-presidente da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), Rodrigo Bandeiras, o temor é que pequenas e médias empresas sejam afetadas pelo fim da modalidade, uma vez que teriam de repassar o custo mais alto do frete ao consumidor. “Com a descontinuidade do serviço, as pequenas e médias empresas serão as mais prejudicadas quando precisarem de venda expressa, uma vez que esse valor deverá subir de 20% a 30%. E isso impactará diretamente nas vendas, uma vez que o maior entrave do setor é que a ‘lógica de comodidade’ não está incutida na cabeça do consumidor, que reclama sempre do preço do frete”, avalia.

Bruno Gianelli, sócio-diretor da Betalabs, empresa especializada em sistemas de gestão e plataformas de e-commerce, entende que os baixos preços estimulavam o consumidor a procurar o segmento, o que não poderá mais ocorrer. “O fim do e-Sedex impacta diretamente no setor, pois o preço era inferior para a entrega rápida de encomendas, e isso incentivava o consumidor a fazer o pedido pelo e-commerce”, avalia.

Bruno pontua, ainda, que os grandes empreendimentos terão facilidades para contornar a descontinuidade do e-Sedex, enquanto os pequenos e médios precisarão de “criatividade” para superá-la. “Hoje, os grandes e-commerces estão preparados, pois conseguiram migrar com antecedência para as transportadoras. Os pequenos e médios, por sua vez, não puderam fazer o mesmo. Com isso, precisarão de criatividade para buscar alternativas, como novas empresas de logística”, completa.

Dois lados. Um dos maiores e-commerces do país, a Nerdstore já havia migrado para as transportadoras, o que impediu o efeito negativo da saída do e-Sedex. “Não sentimos o impacto com o fim do e-Sedex. Desde janeiro, 90% da nossa logística tem sido realizada por transportadoras”, explica Wagner Filgueira, gerente administrativo da empresa.

Dona da empresa de cosméticos artesanais Semillero, Carla Dorásio teme que suas vendas caiam com o fim da plataforma. “Para o mercado local, é fácil solucionar. Eu mesma entrego, muitas vezes, ou peço um motoqueiro. O problema é quando preciso entregar para todo o Brasil, pois o PAC (um dos serviços oferecidos pelos Correios) é muito demorado. O Sedex, por sua vez, é caro. Isso desestimula o cliente, que só vê vantagem em uma compra grande”, lamenta.

Atualmente, Carla envia, de Belo Horizonte, em média 14 encomendas por semana. Segundo ela, é possível que esse número caia. “Não dá para prever o mercado, mas em tempos de crise, é mais uma dificuldade que temos para encarar”.

Antecipando-se ao fim do e-Sedex, a Elo7, marketplace especializado em produtos criativos e autorais, buscou, no início do ano, um acordo com os Correios para que seus cerca de 85 mil fornecedores não fossem prejudicados.

“Tínhamos preocupação com o fim do e-Sedex, uma vez que a maior resistência na compra online é o frete. Por isso, buscamos um acordo de tabela, que não traz um grande impacto direto para nossos fornecedores”, explica Carlos Curioni, CEO da Elo7.

Já o Submarino buscou na inovação uma possibilidade de ampliar seus lucros. Ao criar, em 2016, o “Submarino Prime”, serviço que proporciona entrega ilimitada e promoções exclusivas a quem pagar um valor fixo anual, o marketplace conseguiu atrair ainda mais consumidores.

“Os resultados mostram que os clientes Prime ampliaram suas compras para categorias diferentes das que compravam anteriormente, e têm frequência de compra três vezes maior do que os clientes que ainda não aderiram ao programa”, afirmou a empresa.

Há uma velha frase no mercado que diz que “em meio às crises, surgem as grandes oportunidades”. Clichê ou não, ela serve para ilustrar um segmento que pode ser expandido com o fim do e-Sedex: o de empresas que apostam na colaboração para promover soluções logísticas.

Uma das startups que chamam a atenção é a Eu Entrego. O aplicativo promete conectar empresas e pessoas a uma comunidade de cerca de 20 mil entregadores independentes no país, conforme explica o CEO e fundador da plataforma, João Paulo Camargo.

“Imagine só: um carro sai de Belo Horizonte para Itabirito com o porta-malas vazio. Esse entregador pode fazer sua viagem normalmente, entregando uma mercadoria na casa do consumidor, e ter um retorno por isso. Todos ganham, já que oferecemos uma alternativa fácil, flexível e de baixo custo para levar ou trazer qualquer coisa, sem depender das datas e horários engessados das transportadoras ou dos Correios”, explica.

Para atrair mais clientes para o “social delivery”, como o segmento é conhecido, Camargo aposta, além da comodidade, na segurança. “Temos segurança de ponta a ponta. Uma análise prévia permite filtrar os entregadores. Após a aprovação, ele e o cliente estarão respaldados por nossa geolocalização. Se ainda assim houver algum imprevisto, o seguro será acionado”, aponta.

Fonte: O Tempo

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