O mais perigoso delator

A mansão estava vazia. Silenciosa. Do lado de fora, a segurança, reforçada. Em uma sala de TV, brinquedos espalhados, deixados para trás. Sua família evadira-se para Nova York dias antes. Naquela noite de abril, Joesley Batista tentava conceber como chegara ali, à condição de delator. “Eu sempre achei que crime organizado era coisa de assaltante de banco, de ladrão de gado, de gente com espingarda em beira de estrada...”, disse. Não havia melancolia ou remorso em sua confissão. Numa cadeira na varanda de sua casa no Jardim Europa, bairro mais do que nobre de São Paulo, vestindo o uniforme dos empreendedores de sua geração (camisa branca e blazer escuro), Joesley resgatava na memória o momento em que se deu conta de que ele próprio era membro de uma organização criminosa. Contou que começou a assimilar o conceito do crime sem armas quando o Congresso aprovou a Lei Anticorrupção, em 2013, que previa pesadas punições a empresas que pagassem propinas a agentes públicos (essa mesma lei prevê a “ação controlada” a que a Polícia Federal recorreu com Joesley para armar os flagrantes que demoliriam nossa já combalida República). A ficha de que ele poderia ser enquadrado como um criminoso foi caindo conforme Joesley, que sempre se gabou de não ler jornais e revistas, passou a acompanhar o noticiário sobre a Operação Lava Jato. “De repente, fui ‘veno’ que era crime organizado”, disse o empresário, que engole os “d” dos gerúndios. Ele se identificou com aqueles outros empresários, em sua maioria empreiteiros, imiscuídos com políticos, abastecendo de dinheiro sujo suas campanhas e comprando deles as leis que lhes interessavam. Joesley se reconheceu neles. E agiu.

Fim de fevereiro, comecinho de março, Joesley decidiu atacar para se defender. Investigado pela Polícia Federal em três operações (Sépsis, Greenfield e Cui Bono) desde julho de 2016, neste ano Joesley viu seu grupo, o JBS, cercado por mais duas, a Carne Fraca e a Bullish. As suspeitas sobre o conglomerado incluem pagamento de propina para liberação de recursos do fundo de investimentos do FGTS, fraudes em fundos de pensão e irregularidades na produção de carne dos frigoríficos da marca. Joesley não é um expert em Direito. Não sabe discorrer sobre as implicações jurídicas das investigações. Mas é extremamente sagaz. Sentiu-se acuado e passou a avaliar as saídas que tinha. Pressentiu que, se fosse ele o alvo de algum delator, suas alternativas seriam nenhuma. “O delator falou, você tá acabado”, disse Joesley naquela noite de abril, sem tocar no café e na água que repousavam na mesinha de vidro a seu lado. Embora alguns de seus advogados e familiares fossem contra sua jogada, Joesley confiou que o melhor movimento era ele mesmo partir para uma delação. Com sua voz de locutor de rodeio, afirmou que “quem toma a decisão no final sou eu”. Apesar da convicção com que se tornou um colaborador da Justiça, Joesley passou a temer pela própria vida e pela segurança de sua família. Insiste que recebeu várias ameaças de morte, sem dar detalhes sobre como ou de quem. “Delator acaba morto.” Despachou a família para o exterior e iniciou sua ofensiva de gravações e arapucas.

A forma como Joesley escolheu fazer sua delação sintetiza a maneira como ele sempre conduziu seus negócios: agressiva e intuitivamente. Joesley não completou o ensino médio. Sua inteligência é empírica. Penúltimo de seis irmãos nascidos na pequena Formosa, em Goiás, Joesley preferia trabalhar a estudar. Arrumou bicos num hotel e numa loja de sapatos antes de, aos 16 anos, passar a trabalhar em um dos açougues do pai, José Batista Sobrinho, homem que empresta as iniciais para o império dos filhos. Zé Mineiro, como o patriarca é conhecido, fundou, na década de 1950, um pequeno açougue, a Casa de Carne Mineira, em Anápolis, também em Goiás. A empreitada de Juscelino Kubitschek para erguer Brasília fez cintilar os olhos de quem buscava chances de crescer naquele centro-oeste deserto de meu deus. Zé Mineiro, como fariam seus herdeiros anos depois, aproveitou as benesses que JK concedia aos empreendedores locais (no caso, em forma de incentivos fiscais) e passou a vender carne para as empreiteiras que construíam a nova capital. Nada é mais simbólico para a Lava Jato do que essa relação na gênese da JBS.

Os irmãos Batista iam tocando seus frigoríficos goianos até que, nos anos 1990, o Plano Real lhes deu dois presentes: derrubou as exportações dos gigantes do setor com a valorização da moeda e aumentou o poder de compra do brasileiro com a estabilização da inflação. A carne da Friboi – nome da empresa dos Batistas a essa altura – foi para a mesa do povo. E Júnior (irmão mais velho de Joesley que comandava as empresas nessa época), Joesley e Wesley (o outro irmão à frente dos negócios) foram às compras. Nos anos 2000, eles adquiriram alguns de seus maiores concorrentes. Em 2007, a JBS abriu seu capital. Foi então que as benesses do governo Lula, como já ocorrera com JK, anabolizaram o grupo. O BNDES, Luciano Coutinho à frente, deu início à política de investir nos “campeões nacionais” – grandes empresas de setores que o governo acreditava que, fortalecidas com dinheiro público, turbinariam a economia como um todo. Com a JBS, o BNDES não só emprestou dinheiro, mas se tornou sócio do grupo. Em dois anos, despejou R$ 10 bilhões nos cofres dos Batistas, que se tornaram donos da maior empresa de processamento de proteína animal do mundo. A posição de “queridinhos” dos governos petistas elevou o faturamento da empresa de R$ 4,3 bilhões em 2006 para R$ 170 bilhões em 2016. Rendeu aos irmãos um lugar no ranking dos maiores bilionários do mundo. E a inimizade dos empresários do setor.

Joesley sempre desdenhou da má fama vinda da proximidade com o banco público. Acostumado a resolver seus problemas com imenso pragmatismo e cheques gordos, ele foi assegurando seu sucesso e bom trânsito bancando campanhas políticas de todos os matizes. Seu irmão Júnior aventurou-se na política, filiando-se ao PMDB, levado pelo então vice-presidente Michel Temer. Joesley foi contra. Preferia exercer sua influência nos bastidores e nos financiamentos de campanhas – em 2002, a JBS doou R$ 200 mil; em 2014, R$ 366 milhões para 24 partidos. Joesley também gostava de confraternizar com políticos e frequentar a alta sociedade brasiliense e paulistana, principalmente desde que se casou com a apresentadora de TV Ticiana Villas Boas (na festa, Ivete Sangalo fez o show), em 2012. De um ano para cá, abandonou o mullet de cantor sertanejo (“que é cabelo de gordo”), emagreceu. E tornou-se delator. Aplicou nessa nova fase a mesma agressividade e intuição de homem de negócios. Converteu um procurador da República em seu espião; tentou comprar juízes (como revelou a Temer na conversa gravada por ele); armou flagrantes. Joesley tomou decisões que, enquanto derretem PSDB, PMDB e PT, podem salvar o conglomerado de sua família e sua própria pele. Tudo de maneira pragmática, sem drama, sem bilhetinhos de ameaças, sem barrinha de cereais na cadeia para controlar a glicemia, sem trocar de advogado dezenas de vezes. Mas com ação controlada, microfone plantado e dinheiro com chip. Como um bom membro de crime organizado convertido em delator.

Fonte: Revista Época

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