Febre amarela deixa número recorde de macacos mortos e doentes

O Brasil apresentou, em 2017, o maior número de macacos mortos e doentes em razão de surto de febre amarela desde 1999, quando começaram os registros da patologia em primatas não humanos. Dados do Ministério da Saúde indicam que foram registradas 642 ocorrências confirmadas até 31 de maio deste ano, segundo informações obtidas pelo jornal Folha de S. Paulo por meio da Lei de Acesso à Informação. O ano também foi considerado aquele que teve o maior número de casos da doença em humanos desde 1980, com 792 confirmações.

Em relação aos macacos, número supera em 106 casos o recorde anterior, de 2009, quando houve 536 confirmações de ocorrências em primatas não humanos (chamadas de epizootias). A dimensão do problema, no entanto, pode ser ainda maior – outros 1.448 casos de ainda estão sendo investigados, a maioria de animais que morreram com sintomas da doença. Há ainda ocorrências que foram analisadas e consideradas inconclusivas. Além disso, de acordo com o Ministério da Saúde, cada registro pode envolver mais de um animal, uma vez que é comum que a identificação seja feita quando os primatas já estão mortos e suas carcaças em decomposição, dificultando a identificação da quantidade de corpos. A estimativa real é que 5.553 animais – a maioria mortos, mas uma pequena parcela ainda doente – tenham sido atingidos.

Equipes de saúde costumam recomendar o registro de epizootias como uma maneira de rastrear a doença, identificando as áreas com maior incidência de febre amarela silvestre. Essa forma da enfermidade é transmitida pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes, que picam primeiro macacos contaminados nas matas e beira dos rios e depois passam o vírus aos humanos. A versão urbana da doença não é registrada no Brasil desde 1942. Ela é transmitida pelo Aedes aegypti, que ataca primeiro um humano infectado e depois transmite o vírus a outras pessoas, como acontece com a dengue, zika e chikungunya.

Com os casos de febre amarela silvestre mapeados, os profissionais de saúde podem adotar medidas de prevenção aos humanos, como realizar campanhas de vacinação. Os macacos, no entanto, dificilmente sobrevivem.

“É um desastre ecológico o que ocorreu, o maior surto com mortes de primatas e que afetou espécies em risco de extinção”, disse o primatologista Sérgio Lucena, professor de zoologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) que pesquisa o impacto da doença nesses animais, em entrevista ao jornal.

As razões para o aumento dos casos, no entanto, ainda não são claras. João Paulo Toledo, diretor de vigilância de doenças transmissíveis do Ministério da Saúde afirma que ele pode ter ocorrido tanto pela expansão da doença em áreas vulneráveis quanto pela maior divulgação da necessidade de vigilância. “As pessoas ficam mais alertas”, afirmou. Outros especialistas ainda afirmam que os números só fazem referência a casos que aconteceram próximos a áreas de circulação de pessoas, e mais incidências podem ter ocorrido no interior das matas.

Uma das espécies mais afetadas pelo surto foi o bugio, também conhecido como barbado ou guariba, que estava ameaçado de extinção. A cidade de Caratinga, em Minas Gerais, é um exemplo – cerca de 500 animais viviam no local, espalhados por quase mil hectares de mata atlântica. Após o surto, entre 80% e 90% dos indivíduos morreram, segundo estimativas da Sociedade Internacional de Primatologia, que coordena um projeto de conservação em uma das reservas da região.

Outras espécies que já estavam em risco e tiveram grande impacto da doença em suas populações incluem os saguis-da-serra e os saguis-da-cara-branca, além de sauás (também conhecidos como guigós).

Fonte: VEJA.com

Comentários