Morreu jornalista que anunciou a II Guerra Mundial

Clare Hollingworth morreu aos 105 anos em Hong Kong, onde vivia há três décadas. Quando Clare morreu, esta terça-feira, logo o mundo voltou a falar da 2ª Grande Guerra. É que a mulher era uma correspondente de guerra britânica que deu a notícia do início da II Guerra Mundial. Feito já de si marcante, se não tivermos em conta que aquele era apenas o terceiro dia de trabalho da jornalista, na altura com 27 anos, no ‘The Daily Telegraph’.

Em toda a sua carreira testemunhou várias guerras: Vietname, Argélia, Médio Oriente, Índia e Paquistão, bem como a Revolução Cultural na China.

Mas o facto de ter visto o avanço de tanques alemães na fronteira da Polónia deu-lhe o “furo” de uma vida.

Foi a 29 de agosto de 1939. Clare Hollingworth tinha sido contratada há uma semana pelo editor do ‘The Daily Telegraph’, Arthur Watson, depois de se encontrar com ele por acaso em Londres. Conhecia bem a Polónia, pois esteve em Varsóvia a ajudar refugiados a escaparem da Checoslováquia ocupada pelo nazismo.

Ao publicar a notícia, assinada por “nossa correspondente”, deu o testemunho na primeira pessoa.

Descubro através de autoridade confiável que a Alemanha concentrou 10 divisões móveis, incluindo quase 1000 tanques, na fronteira polaca próximo a Maehrisch Ostrau [cidade na República Checa]. Essa força aparentemente é destinada a um ataque repentino a nordeste contra a Alta Silésia polaca [região do país] e a importante área industrial da qual Katowice é o centro.

Relatos de que uma mobilização geral foi proclamada na Prússia do Leste são confirmados em quartéis polacos hoje à noite. Esse é apenas um dos muitos sinais de que a máquina militar alemã está agora pronta para ação instantânea.

Hoje cruzei a fronteira entre a Polónia e a Alta Silésia Alemã e fiquei horas em Beuthen, Hindenburg e Gleiwitz. A fronteira ainda está fechada para tráfego local.

Em todos os lugares vi sinais da mais intensa atividade militar. Nas duas milhas entre Hindenburg e Gleiwitz cruzei com 65 mensageiros militares em motociclos. Os únicos carros que vi eram aqueles pertencentes ao exército.

As três cidades que visitei estão completamente mortas até onde a população civil pode notar. Ruas, lojas e cafés – tudo deserto. Numa farmácia, onde tentei comprar sabonete, foi-me dito que eles tiveram de enviar todo o stock para Berlim. A falta de comida é muito séria.

Novos fortes que não estavam lá há um mês atrás foram erguidos ao longo do lado alemão da fronteira. Há muitas armadilhas para tanques e ninhos de metralhadoras e milhas de arame farpado eletrificado.

No lado polaco da fronteira tudo é comparativamente normal.

Enquanto a Polónia se prepara para receber um ataque alemão, que agora é esperado quase a cada hora, as minorias nacionais, que são quase 35 por cento da população, reúnem-se em torno do seu país adotado na hora de necessidade.

O Partido Democrático Nacional Ucraniano já divulgou um manifesto de lealdade à Polónia, e o exemplo foi seguido pelo partido Parlamentar Judeu. Dos 750 000 membros da minoria alemã, cerca de um terço é anti-nazi e completamente leal à Polónia.

O governo polaco declarou hoje à noite forte protesto através da oficial Agência de Telégrafo Polaca contra a alegação de Hitler que a minoria alemã na Polónia é maltratada.

É sabido por Danzig [antiga cidade-estado anexada pela Alemanha] que o navio alemão Schleswig Holstein de 13 040 toneladas, que esteve em visita a Danzig até sexta-feira, virou as suas amarras hoje para que suas armas estejam preparadas no porto polaco de Gdynia. O Schleswig Holstein é um antiquado navio de guerra, que pode logo ser colocado fora de ação pelas baterias costeiras polacas na península de Hel.

O Senado de Danzig hoje publicou um decreto parando todo o tráfego de bens numa ferrovia entre Danzig e a Polónia. Todos os comboios com bens a viajar através de Danzig para Gdynia da Polónia devem ser requisitados pelas autoridades nazis e dois comboios foram confiscados hoje em Honenstein e Zoppot.

M. Chodacki, o Comissário-Geral polaco, registou um protesto com o Senado de Danzig.

Sir Howard Kennard, embaixador britânico em Varsóvia, encontrou hoje novamente Col. Beck, o ministro das Relações Exteriores polaco.

Veja a história de vida da jornalista, contada pela própria:

Fonte: Move Notícias

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