Obama, a democracia, Trump e os jornalistas

O eixo da (pós) verdade: Obama, a democracia, Trump e os jornalistas O discurso de despedida de Barack Obama, a apenas nove dias da tomada de posse de Donald Trump, foi amargo e ensombrado por novos dados sobre alegadas ligações do Presidente eleito à Rússia. Obama já conhecia o conteúdo do dossiê e, no adeus, tentou apontar o caminho para acabar com as divisões na América e salvar a democracia. Mas o circo mediático que se gerou — e que não deverá terminar tão cedo — foi mais sonoro: pôs Trump alinhado com a Rússia contra os rivais do costume, mas também jornalistas contra jornalistas e americanos contra americanos. A era da pós-verdade em todo o seu sombrio esplendor O pilar mais forte da proclamada era da pós-verdade é a força da crença que se impõe ao conhecimento científico, ao racionalismo e aos outros valores que a humanidade colheu no Iluminismo. Donald Trump, o homem que está prestes a tomar posse como 45.º Presidente dos Estados Unidos, ‘acredita’ que as alterações climáticas, por exemplo, são um “embuste” criado pela e/ou para a China roubar postos de trabalho aos norte-americanos. Não lhe interessa que os factos e a ciência e décadas e décadas de investigação tenham já apurado, sem margem para dúvidas, que somos nós os responsáveis pela subida gradual da temperatura do planeta, encaminhados em passo acelerado para a nossa própria extinção. Trump ‘acredita’ que as alterações climáticas não são reais e com ele milhões de americanos, incluindo grandes figuras do Partido Republicano. Trump também ‘acredita’ que as vacinas podem trazer mais mal do que bem, quando é um facto científico que esse avanço médico erradicou do planeta doenças fatais que antigamente matavam centenas de milhares de pessoas. Por não ‘acreditar’, decidiu atribuir terça-feira a um anti-vaxxer (como os céticos das vacinas são conhecidos) a tarefa de investigar a segurança desse tipo de medicação preventiva (chama-se Robert F. Kennedy Jr. e é sobrinho de JFK). Horas depois, os media eram inundados por novas e explosivas alegações sobre a relação de Trump com o governo russo, que quase roubaram protagonismo ao homem da noite: Barack Obama. Há uma guerra contra os factos em curso e foi contra ela que o ainda Presidente Obama apontou a mira terça-feira, no discurso de despedida à nação, que escolheu proferir em Chicago, “onde tudo começou” há oito anos, e não na Casa Branca como é tradição. Num tom comedido, semblante sério, Obama pôs o dedo na ferida. Disse que “a subida do partidarismo sem pudores, o aumento da estratificação económica e regional e o estilhaçar dos nossos media em canais para todos os gostos” ajudam a “fazer parecer normal, até inevitável,” que hoje cada um escolha viver na sua “bolha”, apenas rodeado de pessoas que pensam de forma igual e totalmente desligado das restantes, “nos bairros, nos campus universitários, nos locais de culto e nos feeds das redes sociais”. “Cada vez mais sentimo-nos tão seguros nas nossas bolhas que aceitamos apenas informação, verdadeira ou não, que encaixe nas nossas opiniões, em vez de basear as nossas opiniões nas provas que existem”, declarou a meio do discurso sem nunca referir o nome de Trump (salvo quando a audiência começou a gritar por “mais quatro anos” de administração Obama). “Esta tendência representa uma ameaça à nossa democracia. A política é uma batalha de ideias; no decurso de um debate saudável, vamos priorizar diferentes objetivos e diferentes formas de os atingir. Mas sem uma base comum de factos, sem a disponibilidade para admitir nova informação e para conceder que o nosso opositor apresenta argumentos válidos, e que a ciência e a razão têm importância, vamos continuar a falar para o boneco, a impossibilitar os compromissos e a existência de terreno comum.” Seria um exercício de criatividade máxima tentar adivinhar o que Trump teria respondido a Obama, no Twitter claro, se tivesse prestado atenção ao que estava a ser dito e ouvisse nas entrelinhas críticas à sua postura e visões. Só que não prestou e a culpa foi, em parte, da CNN. Antes de Obama tomar o púlpito em Chicago para a despedida, o canal americano avançou uma notícia que desde então tem estado a dominar media, analistas e curiosos. Fontes ligadas aos serviços de informação dos EUA disseram ao canal que, na semana passada, os diretores da CIA, do FBI e da NSA informaram Obama e Trump da existência de um dossiê que contém alegações sobre uma estratégia do governo russo em três frentes: estar a preparar o magnata de imobiliário há vários anos para o ajudar a chegar ao poder; agregar informação “comprometedora” sobre Trump para o manipular e chantagear enquanto futuro Presidente dos EUA; e, durante a campanha, manter contactos diretos e recorrentes com a equipa de Trump. As “várias” fontes com conhecimento de causa garantem à CNN que, a mando de Vladimir Putin, o FSB (ex-KGB) está há vários anos a reunir informação “comprometedora” sobre Trump para poder controlá-lo assim que ele tomar posse a 20 de janeiro. O canal explicou que, apesar de a fonte das informações já ter sido declarada fidedigna pelas secretas, o conteúdo do dossiê apresentado a Obama e a Trump ainda não foi substanciado e que, por esse motivo, decidiu não o tornar público para já. O site BuzzFeed, sob os aplausos de uns e críticas de outros, avançou por sua conta e risco e divulgou-o. Entre as informações citadas, conta-se a alegada participação de Trump num “ato sexual perverso” num hotel de Moscovo. À exceção do alegado episódio de ‘golden shower’ na suite presidencial do Ritz Carlton de Moscovo, em que Trump terá pago a prostitutas para as ver urinar em cima da cama onde Barack e Michelle Obama tinham dormido meses antes durante uma viagem à Rússia, todas as informações contidas no documento não são novidade — ainda há um mês a CIA disse ter provas de que a Rússia interferiu nas eleições americanas para influenciar os resultados a favor de Trump. A história do dossiê remonta a outubro, quando a revista “Mother Jones” avançou que um ex-espião de uma nação ocidental tinha acabado de fornecer ao FBI “memorandos, com base em interações recentes com fontes russas, onde é afirmado que o governo russo está há anos a tentar cooperar com e a ajudar Trump”. O FBI “pediu mais informação” ao ex-agente, que respondeu que “houve uma troca recorrente de informação entre a campanha de Trump e o Kremlin para mútuo benefício”. Já então, um mês antes das eleições, a revista referia que “o FBI não confirmou nem desmontou nenhuma das alegações contidas nos memorandos do ex-espião”. Isso não se alterou. A novidade é que agora se sabe que a fonte é um ex-agente do MI6 que depois de se reformar da agência secreta britânica continuou a dedicar-se ao mesmo trabalho de espionagem a troco de dinheiro. Neste caso foi inicialmente contratado por republicanos que se opunham à candidatura de Trump nas primárias do partido. Já depois disso, recebeu dinheiro dos democratas para continuar a investigar ‘podres’ sobre o rival de Clinton. O dossiê esteve a circular pelas redações americanas e os corredores do Congresso e da Casa Branca durante meses. Vários media tentaram apurar a veracidade do que é denunciado. Nenhum conseguiu e, por essa razão, nada foi publicado. Até terça-feira. Ao publicar a notícia de que as secretas informaram Trump e Obama da existência deste dossiê, apontava esta manhã o “Huffington Post”, “a CNN está a mandar um sinal a todos os meios de que este assunto é para ser levado a sério” — se os quatro homens mais poderosos dos serviços de informação dos EUA decidiram revelar o conteúdo ao Presidente e ao seu sucessor, é porque têm confiança suficiente na informação, mesmo que apenas parcialmente. Ao decidir publicar os documentos que as redações tinham nas secretárias há meses mas que nunca publicaram por questões éticas, o BuzzFeed conseguiu certamente atrair atenção para o assunto. Mas, inadvertidamente, também se arriscou a reforçar a ideia disseminada entre os apoiantes de Trump de que os media são mentirosos e estão investidos numa campanha de difamação e de disseminação de notícias falsas para minar a futura administração — como as notícias falsas que terão feito suficientes eleitores americanos a pender para Trump em detrimento de Clinton. Numa nota interna enviada à redação, e posteriormente partilhada no Twitter, o diretor do Buzzfeed defendeu a decisão “nada fácil” de tornar públicas as 35 páginas de alegações não comprovadas. “O nosso objetivo é sermos transparentes no nosso jornalismo e partilhar aquilo que temos com os nossos leitores”, escreveu Ben Smith. “Neste caso, o documento estava a circular entre os mais altos níveis do governo e dos media americanos. Como sublinhamos na nossa história, existem sérias razões para duvidar das alegações. Estamos em busca de provas específicas há várias semanas e vamos continuar à procura. Publicar este documento não foi uma decisão fácil ou simples e pessoas de boa vontade podem discordar da nossa escolha. Mas publicá-lo reflete a nossa visão do trabalho dos jornalistas em 2017.” Há um timing a ter conta neste enredo. Não só Trump tem estado empenhado em criticar abertamente as agências secretas do país que vai liderar, optando por questionar as suas capacidades mesmo depois de a CIA lhe ter apresentado um relatório com alegadas provas de que a Rússia acedeu ilegalmente aos sistemas informáticos do Partido Democrata para influenciar as eleições, como esta quarta-feira é o dia da sua antecipada conferência de imprensa — a primeira desde que venceu as primárias republicanas em julho, inicialmente convocada para dezembro mas cancelada à última da hora nessa altura (e que decorria à hora de fecho desta edição). Neste momento, há uma série de potenciais conflitos de interesses a que Trump ainda não deu resposta, como o que pretende fazer quanto aos seus negócios ou se vai mesmo arriscar-se a violar as leis antinepotismo ao nomear o genro, Jared Kushner, alto conselheiro da Casa Branca. E a distância que tem marcado em relação às secretas é coisa pouca quando comparada com o fosso que continua a alimentar entre a sua futura administração e a maioria dos jornalistas e jornais americanos. Ao longo desta quarta-feira, esteve no Twitter a disparar ataques contra os “media desonestos” e as agências de informação que lhes terão fornecido os novos documentos sobre a Rússia. Num dos posts escreveu: “As agências secretas nunca deveriam ter permitido que esta notícia falsa fosse ‘vazada’ para o público. O último disparo contra mim. Estaremos a viver na Alemanha nazi?”. Mas vive-se em democracia e foi nisso que Obama se focou terça-feira em Chicago. No discurso de 51 minutos, o Presidente mencionou a palavra ‘democracia’ 20 vezes, mais do que o total combinado dos últimos 15 presidentes dos EUA em discursos de despedida. “A menos de duas semanas da tomada de posse do sucessor Donald Trump, Obama usou o seu último discurso para defender com empenho os valores americanos”, apontava esta quarta-feira o Quartz. “Isso pode não ter satisfeito muita gente que aguardava um discurso sem papas na língua à Barack mas também não parece ter sido acidental. A repetição é básica — é a forma de ensinar as crianças a ler e os cães a sentar. Quando Obama fala de democracia 20 vezes em 50 minutos, ele não quer mesmo que nos esqueçamos do seu significado.” Trump responsabiliza Moscovo no caso de espionagem Na primeira conferência de imprensa de Donald Trump em cinco meses, o Presidente eleito dos EUA apontou o dedo à Rússia no caso da espionagem informática e garante que manter uma boa relação com a Rússia será uma vantagem. “Se Obama não gosta da Rússia não acho isso um trunfo, mas uma fraqueza. Se Putin gosta de Trump não acho isso uma desvantagem, mas uma vantagem” Trump garante que nunca foi chantageado pela Rússia. “Vivemos na Alemanha nazi?” Presidente eleito já respondeu, mais uma vez via Twitter, às acusações de que os serviços secretos russos têm material alegadamente comprometedor contra ele. Kremlin também desmente Trump, Rússia, chantagem e ‘golden shower': o documento que anda a circular nos corredores de Washington Há uma semana, as agências secretas dos EUA apresentaram a Barack Obama e a Donald Trump uma sinopse de um dossiê onde é alegado que Vladimir Putin tem estado a reunir “podres” sobre o Presidente eleito para o chantagear, ao mesmo tempo que se manteve em contacto com a equipa do americano durante a campanha para o ajudar a ganhar as eleições. Os serviços de informação ainda não apuraram a veracidade de algumas das alegações, mas garantem que a fonte é fidedigna Rússia nega ter informações comprometedoras sobre Trump. “É um bluff total” Presidente eleito dos EUA ainda não reagiu oficialmente às alegações contidas no dossiê que os seviços de informação lhe apresentaram há uma semana, bem como a Barack Obama, onde é alegado que esteve envolvido em “atos sexuais perversos” –uma das informações que Moscovo estará a usar para o controlar – e que a sua equipa esteve em contacto com intermediários do governo russo ao longo da campanha presidencial

Fonte: Expresso

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